Capítulo IV Conto Vidas Roubadas
          Por não saber como me confessar, Fabrício tentou esconder-me, por um tempo, a sua decisão, mas a ansiedade e a dolorosa expectativa o entregaram. Ao ter certeza de sua atuação naquela missão, eu não duvidei: iria com ele; e me ofereci como voluntária.
          O primeiro local invadido pelos vorazes muçulmanos foi Roma. O ataque ao papa era o grande desejo do Estado Islâmico e a chance para dominar o mundo. Queriam fazê-lo adorador unicamente de Alá? Famílias com identidades católicas fugiam de suas casas, escondiam imagens e quaisquer objetos que assim os identificassem, algumas mulheres, por medo, e para protegerem suas filhas, vestiam belos véus e assim o fazia com todas da família. Muitos aprenderam o idioma para cumprir presença em manifestações religiosas e saberem falar ou ouvir a língua, podia ser útil para obterem informações sigilosas, e, em troca, protegerem os seus. Após um ataque no Vaticano, a Basílica ficou totalmente destruída, muitos, de ambos os lados morreram. Mesmo com muitos mortos, os árabes tiveram como estratégia se dividirem e montaram grandes equipes, convocaram os filhos solteiros de todos os países muçulmanos e planejavam atacar diferentes pontos em diversos países ao mesmo tempo, podendo, assim, dispersar e exterminar os grupos rivais com mais facilidade.
          A primeira tentativa do povo atacante, em impor a língua, às populações que sofriam as emboscadas, não foi muito satisfatória, no entanto, a presença aos eventos religiosos e a aquisição do Corão foi imediata.
          No primeiro enfrentamento, destacou-se o líder. Fabrício estava a salvo. Em meio a tanto ódio e tortura, conseguimos viver o amor, mesmo com toda a agitação e o perigo que corríamos, tínhamos um ao outro.     
Dos contínuos ataques, meu engajamento nos hospitais foi bem-vindo. O planeta começa a se vingar da ação nefasta dos homens que o destroem e fazem o mesmo com os semelhantespor ganância e vaidade.
          O alerta era constante e a cada enfrentamento, rastreavam-se as bombas que podiam destruir o planeta. A questão era se uma nação aliada não cederia uma arma tão poderosa para acabar com uma legião de homens do lado oposto em apenas um disparo!
           À noite, tornava-se mais difícil dormir ou descansar, após os ataques, corpos entravam nas cabanas ambulatórios, cada vez mais dilacerados e suas partes ficavam perdidas como se em outra primavera pudesse ser regenerado ou reconstituído.
          Quem presenciava tanto horror não acreditava que aquilo era real.
          Por dois dias houve recuos, sem enfrentamento. As enfermeiras voluntárias tratavam de curar os doentes.  Apesar da situação de temor, conseguiam viver o amor puro e verdadeiro.
Fabrício e eu, juntos transportávamos nossos corpos e corações para lugares distantes de tudo, onde não havia indiferença, valores, disputas, cujo amor de uma vida inteira, iniciado na infância, pudesse curar todas as feridas e permitir a ilusão de que a realidade seria diferente.
          Eu estanquei todo o sangue que jorrara de um grande ferimento na perna, motivo pelo qual talvez Fabrício não voltasse à frente de batalha até que o período de recessão acabasse. Isso, no fundo, me confortava, pois era um risco a menos que meu amor corria. Era ele quem dava as coordenadas e instruía dezenas de voluntários. Vimos muitos deles chegarem mortos ou morrerem durante os socorros prestados, e, como bom líder que era, procurava dar o mais digno enterro aos fieis companheiros.
          Muitos rapazes, com apenas 20 anos, foram facilmente exterminados, eles não tinham experiência nenhuma e poucos haviam servido o exército. Mesmo porque essa tarefa estava longe de ser treino para uma guerra real. Muitos eram médicos e passavam a vida se exercitando para curar.
          Cristãos de várias nacionalidades vinham de muitas partes do mundo para ajudarem como voluntários. Entidades cristãs pediam o fim desse ato de ódio e tentavam explicar, em vão, que essa disputa era inútil e que cada nação tinha que conquistar seu espaço sem desrespeitar o do outro.
          Fabrício, ainda de repouso, chorava e lamentava sua falta de preparo físico. Ele, então, iniciou um grande estudo estratégico, juntamente com outras lideranças cristãs, que ficavam cada vez mais horrorizados com a frieza dos grupos muçulmanos.
          Eu passei a cuidar dele de modo especial. Preparava a medicação para a cura de suas feridas. Trocava os curativos e temia pelas feridas que demoravam a cicatrizar. Fabrício perdeu muito sangue em um grande ferimento. Enquanto se recuperava, vivia o amor com sua enfermeira particular.
          O passado mais uma vez veio à tona.   Mesmo os inúmeros desencontros fortaleceram nosso casamento. Eu não guardava mágoas por ter sido trocada tantos anos por outra e afirmei que depois da nossa união, tive certeza de que viveríamos nosso amor para sempre.
          A liderança de Fabrício foi bem reconhecida. As frentes de defesa articuladas deram excelente resultado. Um navio havia chegado ao porto mais próximo com alimentos, mantimentos e recursos diversos. Os países doadores fizeram questão de identificar o que era para cada nação. Tudo estava tranquilo, parecia um recomeço de vida e de paz. Já era hora de preparar a volta para casa dos voluntários com toda segurança. O navio transportaria os feridos e as mulheres, em primeiro lugar. E, assim, foi feito. No período em que o navio atracou por lá, ficou à disposição dos que mais precisavam de ajuda. Alguns idosos feridos ocuparam suas cabines e se algum não resistia, era levado para a cerimônia de cremação em terra firme.
          Pudemos namorar e passar outra lua de mel numa das cabines do navio.          Estávamos protegidos e poupados. Toda a estrutura do navio estava à nossa disposição. Todos se recuperaram por completo, aproveitando as piscinas e os espaços de água quente que poderia ter. Eu, então, me empenhei muito em cuidar do meu amor. Diante desse clima, decidimos, então, tentar, outra vez, ter um filho. E dessa vez, finalmente, aconteceu.
           Não sentia tanto enjoo. E não contei a ele de início, temia que ele me quisesse tirar de lá por causa da criança, ou que ficasse muito nervoso com toda a situação. Isso poderia ser péssimo, se algo acontecesse, eu estaria longe, não poderia cuidar dele. Decidi, então, esconder a gravidez até a barriga passar a aparecer e não ter mais como fingir. Quando passava muito mal e ele via, alegava que era o balanço do navio e que alguns odores de peixes e frutos marinhos me faziam sentir mal.
          O navio saiu da Itália e atracouem terra argentina, Todos deixaram o navio e nós fomos para Buenos Aires. Visitamos o Caminito e no outro dia a Casa Rosada. Nem dava para acreditar que respirávamos um ar tranquilo e de paz, longe dos ataques e do sangue escorrido dos inocentes corpos. Foi lá, que eu contei sobre a minha condição. Fabrício correspondeu com um forte abraço e disse que isso o consolava, pois caso algo acontecesse com ele, eu não acabaria a vida sozinha. Eu fiquei muito triste e desgostosa com esse comentário e percebi que Fabrício mantinha-se em alerta por causa das suas visões. Seria esse o infeliz fim de uma esposa?
          A cidade estava em movimento: o tango, as casas de teatro sempre lotadas. A criança estava bem. Um médico plantonista me passou todas as orientações e exigiu que eu voltasse para casa. Fiquei bem nervosa, não queria deixar Fabrício pra trás, mas isso era, praticamente, impossível. As circunstâncias indicavam que era a hora de voltarmos para casa: ele e eu!
A recepção dos amigos foi das mais calorosas. Nossa casa nos acolheu sem cerimônia. Só pensava em prepará-la para receber um bebê e meu marido nem teve tempo para se reinstalar. Era requisitado para palestras e o trabalho jornalístico ficou mais intenso.  A minha única esperança era, que, por agora ser pai, Fabrício daria um tempo no seu voluntariado.

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