Remédio ou veneno: apenas uma dose
Era
uma cabana escura e fria, obscura. Tão obscura quanto o passado do velho que a
habitava. Vivia lá sozinho com suas lembranças, seus remorsos, e
arrependimentos. Amargo que era, não tinha amigos, não os cultivara desde a
adolescência. Teve um único amor, uma única mulher, um único filho, e três
mortes em sua passada pela vida. Aos noventa anos, as lembranças se misturavam
em sua mente, a realidade e a ficção, muitas vezes, não conheciam seus limites.
Só sabe que tinha sido um médico de sucesso, até a parada de um bebê em suas
mãos. E assim, sua carreira começou a decair. Era seu terceiro assassinado, em
ordem cronológica, o primeiro, sem intenção, diferente dos outros. Nunca tivera
a pretensão de ser um matador profissional, muito pelo contrário: a medicina, o
juramento pela vida. Mas, a loucura, aos poucos, roubava-lhe a sanidade.
Praticara o oposto do que foi ensinado por uma vida. E se aperfeiçoava na arte
da vingança.
Um bebê em suas mãos. Lembrança do filho perdido anos antes. A
vingança como vida...
Salvara a criança, mas nos últimos minutos, um erro: seu paciente
tão pequeno, tão jovem, tão inocente estava com obstrução intestinal. Foi uma
parada atrás da outra. Ao menos, ainda não voltara para a casa. O procedimento,
mesmo que muito errôneo, tende a continuar.
dolorosas situações que acontecem, às vezes não tão trágicas, mas que acarretam ao longo dos anos aquela sensação de perda de algo que nunca mais poderá ser restaurado, deixando cicatrizes doloridas no caráter e uma personalidade mutável a cada dia, perante situações simples de entendimento mas difíceis de serem aceitas perante tantas decepções ou conformismo ao passar da vida...
ResponderExcluirExatamente a essência do meu texto....
ExcluirA essência que existe está em seu coração para transferir de maneira tão bonita em um texto e eu o privilégio de ter lido e ter absorvido toda a sua emoção que nele está contido...
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